1.5.2004
Pisando em Terra Firme
Como quase todos já sabem, no mês de março fui envolvido num pequeno acidente de trânsito. Eu, na minha condição de pedestre, fui atropelado "ao atravessar inadvertidamente a via pública", conforme noticiou um jornal da região. Uma saída do serviço após o almoço com o objetivo de comprar uma cartolina azul clara a pedido do chefe (alguém já viu uma cartolina azul clara?) rendeu uma pancada homérica com direito a fratura no pé esquerdo.
Eu não vi aquele golf vermelho, verdade. É, talvez porque eu tinha me esquecido completamente que aquela avenida era de mão dupla. Mas que eu olhei antes de atravessar, mesmo que para um lado só, eu olhei.
A primeira coisa que as pessoas perguntam por instinto quando conversam com um engessado é:
- Doeu?
Nessas horas quase baixa na gente um espírito de Seu Saraiva, aquele personagem do Zorra Total (Pergunta idiota, tolerância zero...). Mas não. Por incrível que pareça, a dor de uma fratura (pelo menos pequena como foi a minha) não é tão grande quanto eu pensava. Isso porque nem as dores da pancada do carro e da queda no chão eu senti direito. É muito rápido pra gente assimilar.
Uma pessoa que anda de muletas pouco tem de difentente comparada às outras pessoas. Algumas vantagens são concedidas, como a de ganhar o direito de sentar em uma cadeirinha gentilmente cedida em algum lugar onde as pessoas geralmente ficam em pé. Mas a grande diferença está na rotina de casa. Afastado de algumas atividades sociais, o indivíduo engessado fica a par da realidade, dependente de TV e internet. O fato de ver gente de verdade torna-se um desejo quase tão intenso ao sexual.
As visitas acontecem, mas elas acabam sendo recebidas por um anfitrião descabelado, de pijamas, com embalagens de alimentos espalhados ao seu redor, o que, cá entre nós, não proporciona um clima relaxado ao doente. Tampouco à visita.
O importante é que, um mês e uma semana depois, estou com os pés no chão outra vez! Ainda estou em período de licença, porque meu pé inchou feito uma bola de basquete depois dos primeiros passos livres. Dizem que pra tudo sempre tem a primeira vez: o primeiro beijo, o primeiro livro, a primeira fratura. Ainda estou abalado ao saber que meus ossos não são mais virgens (que dramático! hahaha!), mas fica uma experiência nova, daquelas para a gente contar para os netinhos no futuro.
Ou, quem sabe, isso não vira tema de uma música...
"Tira o pé do chão!"