3.14.2004
Homem Não Chora
Eu não sei se existe mesmo um gene especial no cromossomo Y que deixa todos os que têm esse DNA similar ao meu meio como pedras insensíveis. A verdade é que eu não choro de me esbaldar desde 2002, na ocasião de uma crise existencial ferrada dentro da escola (se é que estou com a memória em dia). Vez ou outra eu tenho arrepios, os olhos afundam ou até ficam levemente molhados. Mas eu nunca mais fiquei com um nó cego na garanta, nem solucei, inundei o chão ou fiz coisas desse gênero.
Pôxa, eu poderia até me orgulhar desse feito, mas a verdade é que quem não chora está sempre com aquela sensação de antes do choro, a névoa presa e engasgada na alma. Eu não gosto disso. Tem horas em que eu daria tudo pra me esgarniçar e ter o conforto automático que acontece normalmente nessas horas.
Eu até desisti de fazer algum curso de teatro por aí porque eu simplesmente não sei chegar a esse ponto. Se eu não choro nem em velório, quem dirá interpretando alguém ou alguma cena que não me toca tanto assim? Ou mesmo que me tocasse, tanto faz. Eu fui ficando assim frio ao longo dos anos porque passei a afirmar que nada é problema de fato nessa vida doida. Ou mesmo por eu admitir que sou só mais um diante dos zilhões de indivíduos que existirão nesse universo e portanto nada digno de estar bem ou mal, sei lá eu.
Só sei que eu estou profundamente triste e já faz um bom tempo. Mas ninguém me dá um ombro ou um abraço amigo.
Talvez, quem sabe, se eu chorasse...